• Redação Obra Prima

Uma casa tocada pela sorte

Atualizado: 16 de set.



Coroado com importantes distinções, como o Prêmio Saint Gobain de Arquitetura e o Prêmio Casa do Ano do Instituto de Arquitetos do Brasil, o trabalho de Luciano Lerner Bastos traz uma sólida base Modernista, baseada no uso de formas puras, na fluidez dos espaços, na integração entre os ambientes, na ligação com a natureza, na racionalidade estrutural e no uso de materiais em sua essência."Sempre buscamos tirar o melhor proveito dos condicionantes naturais: o sol, a ventilação, a vegetação local, e a topografia. Entendemos que a boa Arquitetura é aquela que respeita o meio onde está". A Casa Fortunata, de 240m², implantada num bairro tradicional de Caxias do Sul, RS, é uma evidência deste conceito. Fotos: Manuel Sá e Roberta Gewehr.



FORTUNATA, adj. fem. do idioma italiano: aquela que foi tocada pela sorte. Uma casa construída ao redor de uma árvore, onde a razão é o instrumento principal na busca pelo espírito de viver.


Localizada no extremo sul do Brasil, a casa Fortunata é um projeto que evidencia as atividades essenciais da Arquitetura: a leitura cuidadosa dos condicionantes ambientais; a determinação precisa dos processos de construção; a correta resolução do programa de necessidades; e a harmonia das formas construídas.



Construída em um bairro tradicional, aberto, a casa foi implantada ao redor de uma enorme Araucária angustifolia. O acesso desde a calçada até a entrada da casa se dá por um caminho sinuoso de terra batida e brita, a rua adentra o pátio e se estende até a porta de entrada. Não existem muros, apenas uma diáfana tela metálica. Há a intenção de que o chão da casa seja o mesmo da cidade; o desejo de criar espaços urbanos sem barreiras, de integrar visualmente o público ao privado.



A sua inserção na paisagem é uma resposta direta às condicionantes do lugar. Objetivando uma mínima intervenção na topografia, o volume principal é sustentado por um pilotis que delicadamente toca o solo e adapta-se à conformação natural do terreno. Todo material resultante da escavação das fundações foi utilizado; a terra foi usada como aterro para área de manobra de veículos; as pedras foram usadas na construção das taipas de contenção e dos elementos de paisagismo. A vegetação nativa foi preservada praticamente em sua totalidade. Se fosse possível um enorme guindaste içar a casa e pousa-la em outro lugar o terreno original permaneceria praticamente intacto, sem rastros da obra.



Projetada para um jovem casal, a divisão programática da Fortunata é simples: no nível inferior, sob o pilotis, há um abrigo de automóveis; adentrando a casa encontra-se o vestíbulo e a lavanderia. No nível superior, a partir da união geométrica de quatro retângulos, foi projetada uma planta estruturalmente aberta, onde a separação entre as funções de estar, trabalhar e dormir se dá pela condição espacial gerada pelo núcleo servidor e pelo uso de elementos leves. Não existem corredores sem saída e nem espaços fechados de convívio. A circulação se dá em um movimento contínuo que permeia ambientes flexíveis e multifuncionais. Condição que permite que a casa assuma diferentes configurações e possa acompanhar as mudanças de vida dos proprietários.



Completando o programa, três varandas construídas com o aproveitamento das madeiras utilizadas nas formas das concretagens conectam a casa com o pátio dos fundos; ampliam a sala de estar em direção à paisagem. Sem cortinas ou barreiras visuais entre dentro e fora, o morador tem contato permanente com a natureza. Ao mesmo tempo que habita a casa, também habita a mata.



O concreto aparente moldado in loco é usado como matéria total. Está na estrutura, nos fechamentos, nos degraus da escada e até no mobiliário fixo. Um material que envelhece com a mesma beleza da natureza, resiste bem às intempéries e exige baixa manutenção mesmo em meio à umidade da mata. Além disso é um sistema bastante comum na região, com farta mão de obra capacitada e custo construtivo inferior ao de outros sistemas com as mesmas virtudes. Uma estrutura que se mostra crua e desnuda um processo construtivo que ao mesmo tempo que se mostra rigoroso e preciso, também evidencia as perfeitas-imperfeições de um trabalho artesanal. Uma obra onde matéria e técnica são indivisíveis.



Projetamos uma Arquitetura silenciosa que mantem franco diálogo com a natureza; seja através de suas paredes de opacas que no rigoroso inverno do sul se confunde com a neblina; seja pela forma como a mata é refletida em seus vidros nos dias de céu azul. Sua qualidade plástica está nas relações entre planos, vazios, luzes, paisagem e texturas. Um projeto que expande o campo da própria arquitetura e traz reflexões sobre as relações entre a casa e a cidade, entre o homem e a natureza.



Tratando dos aspectos sustentáveis, além da mínima intervenção na vegetação e na topografia existentes, sublinhamos: o usos de madeiras de reflorestamento nas fôrmas do concreto; re-uso desta madeira para construção das varandas; ventilação cruzada em todos os ambientes de uso contínuo; esquadrias de alto desempenho com corte térmico; vidros duplos; isolamento térmico com EPS nas lajes de piso e de cobertura; tratamento do concreto aparente com produtos livres de solventes; sistema de aquecimento alimentado por combustível ecológico; aproveitamento da água da chuva para irrigação; iluminação natural em todos os cômodos, inclusive com uso de clarabóias; iluminação artificial realizada totalmente com lâmpadas de baixo consumo, incluindo automação para o controle da iluminação externa.









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