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  • Redação Obra Prima

No caminho do ouro

Atualizado: 7 de dez. de 2022

Tudo no Parque Nacional da Serra de Bocaina, cortada por caminhos e trilhas do ouro da época dos tropeiros, é cultura e história. E foi recorrendo a ela, inserida em uma das mais belas paisagens do país, que a dupla de arquitetos Cicero Ferraz Cruz e Fábio Mosaner plantaram a Casa Bocaina - Paraty, projeto singular cravado num terreno de 600m, na íngreme encosta que divide os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Fotos: Manuel Sá. Texto: arquitetos.





"Arquitetura não é apenas construção, é antes de tudo uma ideia. A ideia desta casa foi imaginar poeticamente uma situação em que as pedras da construção estivessem sempre estado ali, rearranjadas da natureza, como uma ruína atemporal. Cravada exatamente no melhor sítio, na encosta mais ensolarada, protegida dos ventos do sul e aberta ao sol do norte. Nossa ruína estaria no lugar exato, escolhido através de meses de observação, apreciação e uso prévio do terreno: façamos, pois, uma ruína novinha em folha! Não é uma implantação delicada, não, a casa não “pousa” sobre o terreno, não toca o solo com pilotis, não faz bravatas estruturais. É uma implantação contundente, cravada na encosta, brotada do solo.





Bem, diante desta ruína não há mais nada a fazer, ou quase nada. E é justamente o que fizemos. Adicionamos somente o necessário para fazer desta ruína, uma casa. E por oposição ao que é próprio do terreno, por oposição às pedras, aquilo que foi colocado sobre a ruína veio de fora, usando que há de mais moderno e racional na indústria da construção civil: madeira laminada colada (MLC) e vidro. A natureza desses materiais reivindica suas posições na construção.





Aqui reaparece uma discussão antiga na arquitetura, uma questão que foi trabalha à exaustão a partir do renascimento, mas negligenciada no modernismo: a modenatura da fachada, a relação entre vãos e vedos, cheios e vazios, nembros, panos de peito, vergas, portas e janelas, alinhamentos e desalinhamentos. Abrir uma janela numa parede é uma das coisas mais difíceis em arquitetura, desabafou Souto de Moura em entrevista sobre o projeto do convento de Santa Maria do Bouro: “o próprio fato de abrir janelas é uma dificuldade para mim, uma espécie de um trauma de infância, que se percebe.”





Novamente recorrendo à história, nossa ruína pré-moderna, atemporal, dispõe de vãos regulares e regularmente distribuídos na fachada, independentemente do que aconteça por dentro, como um clássico. Já no pavimento nobre, de vidro e madeira, inverte-se o critério, cada peitoril tem uma altura diferente que obedece somente à demanda interna e aqui não há modenatura clássica, mas sim vãos rasgados de parede a parede. No conjunto da fachada, a sequência clássica (base + coluna + entablamento + frontão), ou do sobrado tradicional brasileiro (base + andar nobre + cobertura), é rompida. O embasamento não tem linha de arremate ou cordão de transição ao andar nobre. A base é prolongada até o peitoril do pavimento nobre. Conforme cada caso, a amurada tem uma altura diferente. A mimese entre embasamento e pavimento nobre e as oscilações assimétricas dos peitoris desfazem um possível classicismo e diminuem a percepção de altura da casa. Não é um sobrado clássico, é uma casa sobre a ruína.






O local da implantação é a resultante de um equilíbrio de forças entre o gasto energético para se construir num lugar alto e o melhor posicionamento frente à trajetória do sol, vistas e acessos. Voltando ao princípio, no local exato onde haveria de existir uma ruína."









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